| Login | Crie o seu Jornal Online FREE!

Momento UniFIAMFAAM - Semanário Digital
Desde: 06/12/2001      Publicadas: 4183      Atualização: 26/09/2007

Capa |  AGENCIA DE NOTÍCIAS  |  PROFESSORES DO UniFIAM FAAM  |  UniFIAM FAAM DIGITAL


 UniFIAM FAAM DIGITAL

  20/09/2007
  0 comentário(s)


ELE QUERIA MUDAR O MUNDO

Caio Queiroz, o jovem empresário que tirou boas idéias do lixo

ELE QUERIA MUDAR O MUNDOMariana Baccarin*

Caio Queiroz é um sonhador. Desses que sonha acordado. Ativo, ele me recebeu com um pouco de atraso e muitas desculpas. Aos 29 anos, lidera o núcleo de meio ambiente da Fiesp (Federação das indústrias do estado de São Paulo) e participa do seleto Conselho de Jovens Empreendedores da Fiesp. Sócio-fundador da Reclicagem, uma empresa prestadora de serviço com foco na sustentabilidade.

Esperei aproximadamente uma hora na recepção da sede da empresa, localizada na parte menos nobre da Avenida Brigadeiro Faria Lima. Enquanto aguardava por Caio, quem me deu atenção foi Luis Fernando Penteado, funcionário da Reclicagem. Um menino de sorriso fácil e fala solta, logo me revelou sua escolha, o budismo. Faz ioga e vive dentro dos preceitos básicos da filosofia oriental, que é respeitar todos os seres vivos. A conversa leve me deixou a vontade e nem percebi o tempo passar. Logo apareceu Caio, e assim que me recebeu mostrou-se disposto a nossa conversa.

Apaixonado pelo que faz, quando começa a falar dos seus projetos parece que o tempo pára. Caio não olhou no relógio, nem se restringiu a respostas rápidas. No nosso encontro de 4 horas deu para conhecer o que está por trás do promissor e jovem empresário.

A nitidez do primeiro contato

Aos 10 anos de idade, quando ainda estudava na escola experimental Santa Cruz, Caio assistiu a um vídeo que previa o colapso do Planeta Terra. Com nitidez ele lembra de uma animação em que as pás de uma retroescavadeira devoravam o globo. A partir daí, o menino, que nem sabia o que estava por vir, começou a seguir o seu caminho verde.

Descendente de portugueses e espanhóis, a família de Caio sempre foi muito unida e numerosa. Seus avós tiveram seis filhos, e cada um tratou de construir uma família também. Os avós e todos os filhos são casados até hoje e convivem com alguns mandamentos que incluem: felicidade e companheirismo. Passam férias sempre juntos: primos, namorados e maridos, todos unem-se ao clã. Caio diz, "Se tivesse que nomear alguém, seria meu avô, ele é o patriarca da família".

O empresário da sustentabilidade não sabia exatamente qual seria seu futuro profissional, quando cursou desenho industrial e propaganda e marketing. Aos 18 anos, época em que trabalhava para o portal de internet Zip Net, um concurso, o Estadão Star Mídia lançou um desafio: criar um site com o tema meio ambiente. A mesma paixão que o tocou aos 10 anos reapareceu. Caio mergulhou no assunto e teve certeza que as nuvens do destino começaram a desaparecer diante dos seus olhos.

Logo, surgiu sua primeira idéia para o mercado. Apresentou o plano para seu avô, que sempre o encorajou e apoiou. O avô trabalha com mercado financeiro no prédio da Brasil Invest, e Caio montou um plano de coleta de lixo para o edifício. Começou a vender papel para reciclagem e viu seu primeiro empreendimento tomar forma. Com o dinheiro da venda dos papéis, que iam pro lixo, ele montou seu depósito, e logo foi acumulando latas, papéis, plástico, tudo que poderia ser revendido para reciclagem. Montou uma cooperativa de bairro para coleta seletiva de lixo. Durante semanas o trabalho era passar em todos os prédios e casas da região da Rua Augusta e convencer os moradores a separar o lixo. Vendendo o material reciclado, ele tinha o dinheiro para manter a estrutura do depósito. O ritmo de trabalho era acelerado, mas os resultados já começavam a aparecer.

Nasce um empresário

A prestadora de serviço começou no ano de 1999, com pouco dinheiro e muita dedicação. Caio resolveu vender o depósito e investir na Reclicagem. E o negócio do lixo começou a dar certo. Hoje têm parceiros como a Votorantim, Camargo Corrêa, Suzano, Nestlé e Banco Real.

Caio não queria ser um "eco chato", como ele mesmo define. Por isso decidiu que sua prestadora de serviço teria sempre um discurso e foco na lucratividade. As soluções apresentadas pela empresa são as mais variadas, desde redução de custos, como diminuir o transporte e o custo por tonelada despejada no aterro sanitário, economia nas contas de luz e água e na utilização de papel reciclado. Outra proposta para as empresas atendidas é gerar receita. A Reclicagem monta um esquema de venda de material que pode ser reciclado. O que era um problema, ou simplesmente ia pro lixo, vira dinheiro.

Numa empresa química que atendeu, Caio fez uma inovação inteligente, que alia redução de gastos com preservação do meio ambiente. Hoje a indústria química é a principal inimiga da preservação da natureza por ser a mais poluente, despeja quantidades relevantes de dejetos altamente nocivos aos rios. Para os processos químicos, a empresa atendida por Caio utilizava muita água e seus gastos eram altos. Após o processo, devolviam a água (com os dejetos químicos) diretamente ao rio. Caio implantou um micro sistema de purificação de água dentro da própria empresa, que passou a utilizar a água diretamente do rio, assim não teve mais o gasto com a conta da Sabesp. A água poluída do rio passa por um processo de purificação dentro da empresa, aí é utilizada na indústria química. Após a finalização dos processos, a água volta para o micro sistema de purificação, e só aí ela é lançada no rio novamente. Solução inteligente que soma à economia, responsabilidade ambiental.

Caio acredita no Brasil, diz que as leis ambientais do nosso país são das melhores do mundo, o problema ainda é a fiscalização. Mas ele acredita que isso está mudando. Entre as grandes empresas que considera admiráveis, está a Natura e o Banco Real. Com responsabilidade social e ambiental, esses dois exemplos brasileiros operam dentro do ISO 14000. Segundo Caio os fatores que levam uma empresa a ser parceira da natureza são: primeiro a jurisdição brasileira, em segundo plano está a redução de custos. Depois disso, o que mais importa é o marketing e a impressão de responsabilidade que a marca imprime nas pessoas. Em último lugar, mas não menos importante, está a exigência de mercado. Hoje, para uma empresa obter ISO 14000, não basta apenas ela cumprir as leis ambientais e humanísticas. Todos os serviços tercearizados que a empresa utilizar precisam do selo também. Isso cria uma espécie de corrente do bem em que uma atrai a outra.

A Renúncia

Talvez o maior desafio de Caio tenha sido o de renunciar a possibilidade de ser um bon vivant. Nascido numa família rica e filho de investidores, com casa e barco em Parati, no litoral do Rio de Janeiro, e outra nas montanhas, em Campos do Jordão, reduto chique de inverno paulistano, ele fez uma escolha. O círculo de amizades continua nessa roda, entre a elite paulistana. Caio desde cedo percorreu seus objetivos, "Eu poderia estar ganhando muito dinheiro no mercado financeiro, junto com minha família". Mas ele escolheu a realização profissional, acorda todos os dias disposto para o trabalho e acha que "meio ambiente é sempre um investimento". Desde que se decidiu por esse caminho, Caio tem ocupado seus finais de semana e férias com projetos. Às vezes sente falta da vida que tinha, "percebi que perdia muitas viagens com meus amigos, pois quando eles me mostravam todas as fotos, de esqui a surfe, eu nunca estava lá". Mas ele não consegue se enganar, sabe que está escrevendo seu futuro, e que renúncias fazem parte.

Momentos em família são os mais presentes nas boas lembranças de Caio, um deles está em Campos do Jordão, quando após o almoço ele e o avô caminhavam até um tronco deitado no chão, próximo da casa, e apreciavam a vista bebericando vinho e trocando confidências. Parte da coragem e determinismo de Caio vem do incentivo e força que seu avô imprimiu em sua personalidade.

O empresário e o lixeiro

A infância foi fundamental para a formação da personalidade do empresário. Mesmo nascido em São Paulo, Caio sempre esteve em contato direto com a natureza. A cidade não é exatamente o melhor lugar para se morar, "não me faz muito bem, o ritmo, as pessoas", se pudesse, Caio viveria pela estrada. Ele precisa da "terapia de isolamento", que ele próprio criou.

Para divulgar seu trabalho, ele usa recursos criativos. Um dos projetos mais excitantes que participou foi o Rally dos Sertões, onde ele foi divulgar o seu trabalho. Durante semanas, viajou com uma pequena equipe em uma camionete Mitsubishi cedida pelo patrocinador do evento. Lá registrou belas paisagens e pobreza, depois mostrou-me as fotos emocionado: "é isso que eu gosto de fazer".

Fogo! Durante a viagem ao sertão brasileiro, Caio e sua equipe apagaram um incêndio de dois quilômetros com baldinhos de areia, "Foi treta". Ele gosta de ajudar, salvar e principalmente entender. Por isso, em qualquer lugar que ele está viajando, Caio vai sempre visitar o lixão, virou um hobby.

Num shopping center em que prestava consultoria certa vez, foi ele mesmo dar aula para os funcionários de como se separa o lixo. Como o movimento no horário de almoço era intenso, o treinamento era focado na rapidez da prática. Na hora em que deu o movimento máximo estava Caio, com as mãos no lixo, separando o orgânico do reciclável. Os funcionários pararam por um segundo para observá-lo, logo ele gritou "Mão na massa, gente!".

Ele é assim mesmo, se envolve com o que acredita. Enquanto conversávamos, ele desligou do horário, dos funcionários indo embora, das ligações no seu celular. Cada detalhe na humilde sede da Reclicagem ele tinha uma história para contar, como a do quadro, que o faz relembrar dos seus sonhos e objetivos quando se sente cansado. Caio é espiritualizado e acredita no aprimoramento do planeta e das pessoas. "Quero ter três filhos, estou no planeta pra isso", decreta sua missão.

"Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações."
Artigo 225 da Constituição Federal de 1988.

" Estudante de Jornalismo do Curso de Comunicação Social do UniFIAMFAAM Centro Universitário, Mariana Ew Baccarin (marianabaccarin@gmail.com), 24 anos, trabalhou nas publicações Cool Magazine, especializada em comportamento e moda, e Wish Report, voltada ao mercado de luxo. Hoje é freelancer da Unesco.

*** Texto produzido para a disciplina de Jornalismo Literário, sob orientação da Profª Drª Monica Martinez



  Mais notícias da seção Gente que escreve no caderno UniFIAM FAAM DIGITAL
26/09/2007 - Gente que escreve - PAGANDO FAVORES
Crônica do Prof. Edgard...
26/09/2007 - Gente que escreve - UMA VIDA DANTESCA
A força de vontade de Cassiano Oliveira, catador de entulhos que encontrou no lixo uma forma de sobreviver e escapar do inferno...
26/09/2007 - Gente que escreve - FIDELIDADE ÀS RAÍZES E ORIGENS
A dedicação e preocupação de Leonardo Mendonça com o meio ambiente fizeram com que o filho de fazendeiro pagasse as pessoas para que plantassem árvores....
20/09/2007 - Gente que escreve - MEMÓRIAS DA PRAIA
Crônica do Prof. Edgard...
20/09/2007 - Gente que escreve - O GUARDIÃO DA FLORESTA
Amor à natureza fez Marcio Mônaco se tornar um agrônomo ...
12/09/2007 - Gente que escreve - UMA QUESTÃO DE PRAZOS
Crônica do Prof. Edgard...
04/09/2007 - Gente que escreve - VINGANDO AS FLORES
Crônica do Prof. Edgard...
29/08/2007 - Gente que escreve - GENTE DE VALOR
Crônica do Prof. Edgard...
23/08/2007 - Gente que escreve - UM COMPUTADOR ALOPRADO
Crônica do Prof. Edgard...
15/08/2007 - Gente que escreve - UM PEIXE FRITO
Crônica do Prof. Edgard...
08/08/2007 - Gente que escreve - FAZER NADA TAMBÉM É ARTE
Crônica do Prof. Edgard...
02/08/2007 - Gente que escreve - QUESTÃO DE MOMENTO
Crônica do Prof. Edgard...
17/06/2007 - Gente que escreve - SOSSEGADO
Crônica do Prof. Edgard...
17/06/2007 - Gente que escreve - UMA HISTÓRIA AO ACASO
Crônica do Prof. Edgard...
10/06/2007 - Gente que escreve - COM UM CARTAZ NA CABEÇA
Crônica do Prof. Edgard...
03/06/2007 - Gente que escreve - O PALAVRÃO EM POUCAS PALAVRAS
Crônica do Prof. Edgard...
29/05/2007 - Gente que escreve - DE CRISTA CAÍDA
Crônica do Prof. Edgard...
23/05/2007 - Gente que escreve - O RISCO DOS RISCOS
Crônica do Prof. Edgard...
17/05/2007 - Gente que escreve - A FALTA QUE UM "GROOVING" FAZ
Crônica do Prof. Edgard...
02/05/2007 - Gente que escreve - É BEM PELO MEIO
Crônica do Prof. Edgard...
25/04/2007 - Gente que escreve - PARECIA A VIDA
Crônica do Prof. Edgard...
25/04/2007 - Gente que escreve - A DANÇA DAS CADEIRAS
Cadeirante e dançarina, com muita força de vontade...
18/04/2007 - Gente que escreve - MEIO DO CAMINHO
Crônica do Prof. Edgard...
17/04/2007 - Gente que escreve - EM CASA DE FERREIRO, O ESPETO É DE PAU
Já faz quase dois meses que a concessionária Carrera sofre com o sumiço de instrumentos de trabalho. Quem acaba atingido são os clientes....
11/04/2007 - Gente que escreve - COISAS DE AMIGO
Crônica do Prof. Edgard...
03/04/2007 - Gente que escreve - CONFORME SE VIU NA TV - VERSÃO DOIS
Crônica do Prof. Edgard...
27/03/2007 - Gente que escreve - CONFORME O QUE SE VIU NA TV
Crônica do Prof. Edgard...
20/03/2007 - Gente que escreve - TIROTEIO NAS REDAÇÕES
Caiu o tabu: jornalista agora processa jornalista...
17/12/2006 - Gente que escreve - UM ÚLTIMO PEDIDO
Crônica do Prof. Edgard...
12/12/2006 - Gente que escreve - MANTENHA SEGREDO
Crônica do Prof. Edgard...



Capa |  AGENCIA DE NOTÍCIAS  |  PROFESSORES DO UniFIAM FAAM  |  UniFIAM FAAM DIGITAL
Busca em

  
4183 Notícias