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Desde: 06/12/2001      Publicadas: 4183      Atualização: 26/09/2007

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  26/09/2007
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PAGANDO FAVORES

Crônica do Prof. Edgard

PAGANDO FAVORES
Estou devendo um enorme favor para um sujeito que nem conheço. Nunca vi mais gordo, nunca vi sua cara, nunca olhei seus olhos e, no entanto, passei a lhe dever muito, um favor enorme.

Confesso, no entanto que, ao mesmo tempo que reconheço a dívida fugi dele com muito medo.

Garanto, porém que, ali onde eu fugi, qualquer um sumiria.

Era noite e eu me vi parado no acostamento da rodovia Fernão Dias com uma pick-up lotadinha de objetos caseiros e sem combustível. Era uma geladeira, um micro-ondas, fogão, camas, colchões e mais uma porção de bobagens que eu transportava de São Vicente para Atibaia.

Deu-se que acabou o álcool da desgraçada da caminhonete bem na subida de um morro.
Para minha sorte estava acompanhado do Airton, um rapaz vizinho que me ajudava na empreitada.

Poucos podem imaginar o sufoco que foi carregar tudo aquilo lá na baixada para desocupar um apartamento vendido, ajeitar e amarrar coisas, subir a serra, encarar o trânsito de São Paulo saindo quase ileso.

Não foi fácil, especialmente para mim que nunca fui de fazer força. Afinal, meu lema sempre foi: "uns pensam, outros trabalham". Eu penso. Minha mulher já tinha alertado sobre uma ligeira desconfiança em relação ao funcionamento do marcador de combustível do carro. Como sempre, achei que era exagero, bobagem dela. Não era.
Burrice sem fim da minha parte, deu no que deu.

Parado na serra, na escuridão da estrada, o Airton se prontificou a sair atrás de um posto de combustível que ficava bem mais adiante, um subidão sem fim para quem tinha que ir a pé.

Fiquei contando vaga-lumes, aperreado de medo nesses tempos de bandidagem explícita. A "carga" da caminhonete estava à mostra e a Fernão Dias tem muita tradição em roubos e assaltos desse tipo.

Me sentia mais gelado do que o frio que fazia. Sorte que nem demorou muito para ver o Airton voltando com uma garrafa de álcool. "O senhor nem vai acreditar", disse, esbaforido. "Quando eu estava subindo, um caminhão parou e o motorista disse que havia visto a caminhonete abandonada no acostamento. Perguntou o que tinha
acontecido e eu contei da falta do álcool. Ele me disse: "Tá danado! Aquele posto lá de cima está desativado. Sorte sua que eu tenho um galão de álcool aqui no caminhão. Eu costumo comprar álcool em São Paulo para vender em Minas, onde é muito mais caro. Se você quiser, eu vendo".

Esperto, o Airton tinha catado uma dessas garrafas de plástico jogada na beira da estrada e sugeriu: "Seguinte: o sr. me vende um pouco de álcool, eu abasteço a caminhonete, a gente sobe e vem ao seu encontro para comprar o resto do galão...".

O caminhoneiro topou e lá veio o Airton que, por só ter levado 50 reais, ficou de acertar tudo no novo encontro com o motorista do caminhão.

Coloquei o pouco álcool no tanque, liguei o carro e comecei a tocar em frente na busca do resto do álcool do caminhoneiro. Foi então que me deu o estalo: e se o caminhoneiro estivesse mal intencionado? E se fosse um truque? E se ele tivesse dado só um pouco do álcool, para me pegar quando eu chegasse para buscar o resto? No meu enlouquecimento momentâneo pensei no caminhoneiro apontando uma arma ou qualquer coisa assim.

Me senti dominado.

Imaginei ele se apossando da minha caminhonete, minha pequena mudança e bau-bau! Não é isso que se vê nos filmes? Meu sangue gelou. Apavorado, toquei em frente e passei direto pelo caminhão que continuava parado no acostamento esperando por nós.

Só pedia a Deus que o pouco álcool conseguido fosse suficiente para chegar até ao próximo posto, uns dez quilômetros lá na frente.

São Cristóvão me ajudou e meu plano deu certo. Foi muito bom, mas, no fim, me fez muito mal. Neste exato momento estou aqui me martirizando e pensando: e se o sujeito do caminhão fosse daqueles caminhoneiros autênticos e heróis, irmão da estrada, essa gente boa que ganha a vida sofrida e só quer ajudar, quando é preciso, seja lá quem for? O que é que esse homem pode estar pensando de mim agora? No mínimo que sou um bandido que se apossou de dois salvadores litros de álcool. Um sem vergonha e desconsiderado, incapaz de agradecer a um favor prestado numa noite fria da Fernão Dias.

Minha cabeça anda mais pesada que a carga da caminhonete. Eu devo um favor enorme a uma pessoa que nunca vi mais gorda nem mais magra e que julguei bandido. Quero pedir perdão ao caminhoneiro sem rosto, afinal, o bandido sou eu. Se como diz o ditado, favor com favor se paga, estou precisando de alguém que precise de ajuda para poder continuar em paz comigo mesmo. Nem que seja por favor, apareça. Eu preciso apagar esse favor da minha cabeça.

Prof. Edgard de Oliveira Barros



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